domingo, 10 de julho de 2011

A Rosa.

Parte 1: Olhares.
Na rua dos corvos, em frente a uma confeitaria, havia uma mansão. Era uma construção assustadora. Todos tinham medo de passar por ali à noite. O tal prédio tinha arquitetura antiga, e grades de ferro a rodeavam. Um portão tão grande quanto velho dava entrada para o jardim, o qual fazia caminhar alguns metros antes de chegar à mansão dos Álvares.
Ali vivia uma garota chamada Minerva. Todos sabiam de sua existência, mas ninguém a conhecia. Apenas uma coisa era certa sobre ela, a menina jamais atravessara o portão para ir à rua. Diariamente ficava de pé no lado de fora de sua casa, e com as mãos agarradas no portão assistia as crianças brincando lá fora. Mas com o tempo isso acabou. As crianças já não brincavam mais ali. Tinham medo de Minerva! Sempre diziam que ela era uma bruxa muito poderosa e malvada. Outros diziam que as pessoas eram petrificadas só de olhá-la nos olhos. O que não era de se estranhar. Aqueles olhos cinzentos deixavam-nos em um clima nublado e sombrio, tal como era aquela cidade.
A aparência dela só fortificava mais os boatos. Vestia somente vestidos pretos, como se estivesse constantemente de luto; por mais que tivesse bochechas rosadas— o que expressava vida— mantinha no rosto uma expressão triste de solidão.
Não demorou muito para que eu também acreditasse em tais balelas, como todos na pequena cidade o faziam. No entanto sempre duvidei da minha crença, mesmo que só um pouco.
Ainda tinha nove anos de idade, quando minha mãe me mandou ir à confeitaria comprar doces para o jantar. Um tal de Sr.Manoel ia nos visitar e ela queria causar a melhor impressão possível.
Ao passar pela frente da mansão dos Álvares, tentei não olhar para lá. Mas quando saí da confeitaria não pude evitar, além do mais ficava em frente. Ela estava lá sentada em cima dos calcanhares com um ursinho de pelúcia no colo. Olhava-me fixamente, eu a olhei da mesma forma. Por um momento fiquei desatento, e tudo para ter certeza de que ela não me faria mal. Foi então, tropeçando em uma pedra, que vi o quanto era inofensiva. O sorriso tímido que ela me jogara encabulou-me. Sendo assim fiz a primeira coisa que me veio à cabeça: correr.
Chegando em casa, minha mãe arrumava a mesa e o tal Sr. Manoel já estava presente.
A parte do almoço não foi interessante, e o Sr. Manoel não era um dos mais simpáticos. Fazia piadas sem graça enquanto minha mãe ria sem nem mesmo prestar atenção no que ele falava. Ela estava tão boba quanto ele. Dava pra vero interesse dos dois em relação ao outro.
Não quis me demorar muito ali — acho que não sou candelabro para “segurar vela”—, por isso fui ao meu quarto para deixar os dois a sós.
Mesmo estando uma noite fria não conseguia dormir. Virava- me para um lado, para outro, e nada. Mas repentinamente...
Alguém me chamava. Não sabia quem era, mas queria esta do seu lado. Caminhei até o penhasco e sentei-me ao lado dela. Olhei-a. Ela fez o mesmo. Os cabelos negros e ondulados dançavam ao vento, os olhos pareciam mais cinzas que o normal. Estavam cheios de lágrimas, vazios, desesperados. Minerva então levanta me pedindo desculpas, queria perguntar por que, mas não podia. Não conseguia falar. Algo me paralisou; algo me prendia. Comecei a chorar, ela dizia que não podia mais, tinha que ir. Mesmo sem entender estava triste, não queria isso. Levantei-me e a abracei. Antes que conseguisse falar algo o penhasco desabou e nós caímos... Caímos... Caímos... Mergulhamos no desconhecido. Mas não tinha fim. Não acabava. Ainda estávamos abraçados. Era como se ela estivesse me protegendo, ou esperando que eu a protegesse. Fechei os olhos, podia ver o fim.
Já era manhã quando acordei. O sol penetrava a janela do quarto. Tudo tinha sido um estranho sonho.