terça-feira, 1 de novembro de 2011

Inesperado.

Meus dias na sétima série seriam ótimos. Tinha bastantes amigos, tirava boas notas e estudava perto de casa. Tudo estaria perfeito se não fosse por ela: Camila Levi de Andrade. Ela era alta, olhos azuis e tinha longos cabelos loiros e ondulados, tipo de garota que todo homem pede a Deus, certo? Errado! Na verdade são características típicas de uma patricinha egocêntrica e idiota. Com certeza a pior pessoa que um ser humano pode conhecer.
Não deveríamos ter nada a ver um com o outro — ela cursava o primeiro ano do ensino médio, enquanto eu, o fundamental— mas infelizmente ela interferia completamente na minha vida.
Tudo começou no inicio do ano. Estava tranqüilo andando pelos corredores da escola, quando, sem querer, esbarrei nela. Eu pedi desculpas, e ela poderia só ter aceitado e ido embora, mas ao invés disso ficou falando um monte de bobagens, algo como: ”você não olha por onde anda pirralho? Sabe quem eu sou?”. Apenas ignorei, não dava a mínima para quem ela era e nem entendia porque aquela garota chata era a ídolo do colégio. Já estudávamos no mesmo colégio há muito tempo, mas acho que aquela foi a primeira vez que fui notado.
De alguma forma Camila guardou rancor de mim, talvez por eu a ter desprezado. O ocorrido foi que certo dia ela tirou fotos do meu caderno. E qual o problema nisso? Não haveria nem um, se não fosse pelo fato de nele conter um monte de declarações e poemas escritos para uma garota a qual era apaixonado. Ela iria expor para todos, certamente eu passaria vergonha.
— Se você não quiser que conte pra todo mundo, vai ter que fazer o que eu mando sempre e na hora que eu quiser. Entendeu? — ameaçou Camila.
Não tive escolha! Desde então a seguia para cima e para baixo, fazendo de tudo, desde carregar cadernos até levá-la em casa. E quando estava doente exigia que eu fosse visitá-la.
Estávamos no final do ano, sexta-feira. Como de costume eu ia levá-la em casa quando de repente.
— Droga! Esqueci meu caderno — disse Camila.
Já sabia que ia sobrar para mim, mas disfarcei e continuei andando.
— Temos que voltar! — continuou.
— Ai! Por quê? Estamos quase chegando!
— Temos que pegá-lo.
— Eles sempre guardam. Podes pegar amanhã.
— Não, não posso, tenho um exercício pra entregar amanhã.
— O colégio tá fechado.
— Podemos pular a grade.
— Não! Alguém pode nos ver!
Nessa hora ela me olhou com um olhar demoníaco.
— Já se esqueceu do nosso trato?
— Mas, nós...
Não tinha mais o que falar, no fim a ultima palavra era a dela. Por conta disso voltamos.
O caminho estava muito escuro, o vento batia nas arvores, as quais faziam um barulho tenebroso. Estudávamos à tarde por isso já era noite. Camila estranhamente pegou minha mão, ela parecia muito assustada.
— Você tem medo de escuro? — falei extintivamente, mas me arrependi na hora. Ela com certeza responderia rispidamente.
— Sim, um pouco — respondeu envergonhada, isso me surpreendeu. Ao que parece estava muito assustada para lembra que eu era apenas seu animal de estimação.
Ao chegar ao colégio tentamos, inutilmente, abrir o portão. Porém o mesmo só abria por dentro.
— Você pula e abre pra mim — disse ela
Foi o que eu fiz. Ao abri o portão, Camila entrou rapidamente. Precisávamos chegar até a sala dela. Caminhamos ao longo do pátio e adentramos a recepção. Em seguida caminhamos pelos corredores escuros. Eu estava profundamente incomodado. Camila agarrava-se em mim, podia até mesmo sentir sua respiração ofegante.
— Você poderia me largar?!
— Desculpe — disse ela sem graça.
Continuamos até virarmos à esquerda e entrarmos na sala do primeiro ano. O caderno já não estava lá.
— Droga! Devia ter pensado nisso. Eles guardam os objetos esquecidos na diretoria — disse começado a ficar bravo. Suspirei e prossegui — torça para que ela esteja aberta.
Saímos da sala, olhei para Camila. A expressão dela estava esquisita, como se estivesse arrependida. Continuamos a andar, mas ela estava hesitante, até que repentinamente parou. De inicio não percebi, mas ela enfim chamou meu nome bem fracamente. Como se estivesse com medo de falar algo.
— O que foi? — perguntei
— É que — fez uma pequena pausa — a diretoria está trancada. Quer dizer, ela nunca fica aberta.
— Como sabe? Podemos pelo menos tentar.
— Não! — a voz dela havia ficado trêmula — Eles tomam muito cuidado com esse detalhe.
— E agora? E seu exercício?
— Não tenho exercício algum.
— Como assim? Você tinha me dito que...
— Eu sei. Desculpe-me, eu menti. Eu realmente esqueci o caderno, e podia ter esperado até amanhã.
— Mas por quê?
— Eu só — olhou para a esquerda — só queria saber até onde você iria por mim — sorriu doentiamente.
— Até onde eu iria por você? — naquele momento já não sabia o que significava paciência— Eu não iria a lugar nem um por você! Não estou fazendo nada por você! Eu só quero guardar meu segredo e você ainda me faz uma dessas!
— Calma foi só uma brincadeira!
— Brincadeira é o cassete! Você é uma aproveitadora idiota! É a garota mais estúpida e irritante que eu já conheci. Sua vaca imprestável! Atrevida!
— Parece que você não está em condições de me xingar — disse ela me mostrando as fotos que havia tirado. Porém a voz não estava firme, ela parecia estar se defendendo.
Aquele era meu limite, já tinha suportado o bastante, não podia mais ser o “animalzinho” dela.
— Quer saber?! Cansei de você! Pode mostrar essas fotos até pro demônio, não to nem aí! Você pode até acabar com a minha vida social, mas eu vou ficar feliz em nunca mais ver essa sua cara nojenta! Pode mostrar essa merda a todos! E depois morra! Espero que morra só, desgraçada!
Parece que minhas palavras estavam fazendo efeito, talvez tenham feito até mais do que eu esperava. Enquanto eu falava os olhos de Camila começaram a ficar úmidos, até que ela explodisse e me desse um tapa. Nessa hora não respondi por mim, foi mais forte que eu. Virei na mesma hora e revidei com outro tapa. Momentaneamente isso me aliviou, mas depois fiquei com remorso, as lagrimas dela escorriam mais ainda. Ela estava com as mãos no rosto. Ia pedir desculpas, mas a garota pulou em cima de mim e ambos caímos.
“Minha vida acabou” pensei. Estava de olhos fechados, não queria ver o que ela ia fazer comigo, estava certo que algo bom não era. Mesmo sendo homem, não podia com Camila. Ela era mais alta, mais forte, enquanto eu era pequeno e medroso. De fato estava acabado. Não sabia o quanto ia apanhar, mas sabia que ia ficar bem machucado. Todos iam rir quando soubessem que havia apanhado de uma menina.
Senti as mãos de Camila se entrelaçando nas minhas, eram macias como seda. Segundos depois percebi o corpo dela se colocar sobre o meu , já sentia o calor, o peso, e a delicadeza do mesmo. Mas ainda assim tinha medo de abrir os olhos, tinha medo do que poderia me acontecer. Meu corpo começara a ficar trêmulo. Ofegante, tentava não me concentrar na respiração de Camila. De algum modo eu sentia o coração da garota. Estava como o meu, batia forte e rápido. E, inesperadamente, algo tocou meus lábios, algo macio e úmido. Eram gelados, porém muito agradáveis, eles me fizeram esquecer tudo e todos. Perecia que nem mesmo eu existia. Os lábios de Camila eram a melhor coisa que já tinha experimentado.
Camila além de beijar meus lábios, ela também os mordia, às vezes forte, às vezes fraco. Pensei fazê-la parar, mas já havia sido dominado, quando dei por mim estava respondendo àquele beijo.
Ela então se afastou um pouco seu rosto do meu e sorriu. Apenas assim pude perceber o quão era Bela. Estava estático, não conseguia me mover. Ela permaneceu por cima de mim, mas apenas nos olhávamos nos olhos. Não entendia o porquê daquilo.
— Desculpe te trazer até aqui— começou ela como se tivesse lido minha mente — Eu só queria ficar um pouco mais com você, sem que nada nos atrapalhasse.
— Mas por quê?
— Eu sempre... Sempre gostei de você, desde quando você me salvou dos garotos.
— Perdão... Eu não me lembro disso.
— Sim, eu sei. Foi logo quando entrei. Você era da alfabetização e eu da segunda série. Alguns garotos tomaram meu lanche. A diretora apareceu e deu castigo aos dois. Fiquei sabendo por ela quem tinha a avisado. Se lembra agora?
— Um pouco, mas pensei que nunca tivesse olhado para mim antes.
— Eu sempre te observei, mas nunca tive coragem de falar com você. Pensei que ficando popular você me notaria, mas parece que eu era invisível para você.
— Se gostava de mim então porque me tratava tão mal?
— Eu só queria arranjar um jeito de ficar com você. Só queria uma maneira de você me notar, mas no fim te fiz ter uma idéia errada sobre mim.
— Desculpa!
— Tudo bem, não foi culpa sua. — ela então se levantou e olhou para o relógio — droga, já é tarde temos que ir.
Saímos às pressas da escola.
Como minha casa ficava a caminho do lar de Camila, insisti em levá-la em casa. No caminho ficamos calados. Eu estava apenas apreciando sua presença, a qual pela primeira vez me era agradável. O vento batia em nosso rosto, e não largamos a mão até chegarmos em frente da casa dela.
O clima mudou. Parecia que nunca mais íamos nos ver. Não queria ir para casa!
— Então... Acho que é isso. — disse Camila com um olhar triste.
Ficamos parados encarando um ao outro. O tempo corria e eu realmente tinha que ir para casa.
— Acho que tenho que ir. — disse fracamente.
Dei tchau com um gesto, mas quando virei para ir, Camila me puxou e me beijou outra vez. Dessa vez mais forte e intensamente e no fim disse:
— Pode passar aqui pra irmos juntos amanhã?
— Eu irei.
Ela sorriu outra vez.

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